Descobertas e Decepções
Estou por motivos que minha alma conhece, mas me guarda segredo.
E fica apenas aquela sensação de que isso me satisfaz, embora eu não saiba porquê.
Dentro de todas as minhas dúvidas, mora a esperança de poder descobrir a verdadeira resposta de tudo. Mas sem perder a beleza de, tentando e errando, conhecer as respostas erradas que encaixariam perfeitamente.
A vida é engraçada...
Mas não estou rindo, no momento."
João Pessoa, 22 de Agosto de 2009
Fome de quê?
José preocupou-se com o pão.
Porque o pão, para ele, é o básico.
Se não há pão, há desespero.
Se não há pão, não há paixão.
Se lhe falta pão, lhe falta tudo.
E morre-se.
Morre-se de tristeza, de raiva, de fome.
Morre-se porque essa é a conseqüência da falta.
Mar amigo*
Jacinto olha pela janela, o corpo todo voltado para ela. Faz que sim com a cabeça. Os olhos andam e andam, extasiados com a beleza das estradas.
— Você vai ver só que coisa linda é o mar, Jacinto.
E ele sorri. A coisa que mais espera é o mar. O sono não veio na noite passada, só pensava em mar.
— O mar é grande?
— Já disse que sim. Mas carece de ter medo não, viu?! É só ficar na beiradinha.
Ele pôs-se a pensar em como seria a beiradinha do mar. Uma raposa passou correndo e o mar se perdeu no pensamento. A raposa no alto da colina, encarando Jacinto. Jacinto encarando a raposa.
— Raposa, vem comigo ver o mar. — A raposa nada disse. Saiu correndo mundo afora.
— Vem, Jacinto. A praia.
Os pés pisaram na areia quente, um susto! Um grito!
— Cuidado, menino. Põe o chinelo.
Jacinto vê um par de bunda despontando no seu caminho.
— Olha só, mãe, a moça pelada.
— Menino, venha embora.
As moças acham graça da bobagem de Jacinto, acham graça da burrice e da cara de Jacinto. Jacinto ri para as moças.
— Olha só, Jacinto.
Olha só ele. Ele ta ali. Jacinto fica como estátua, olhando, olhando. Quase não pode acreditar. O mar é lindo mesmo. Parece um velho, com uma barba que balança. Tão calmo, as ondas parecem a respiração do mar. Ele respira e expira, respira e expira. Como é bom o mar.
— E tem peixe aí dentro?
— Tem.
— E lula?
— Tem.
— E tem tubarão?
— Tubarão não.
— Que bom.
Jacinto toca o mar. O mar é tímido, se esquiva. Ele insiste e o mar se entrega. O mar é engraçado. E que água salgadinha que ele tem.
— Jacinto, não vá pra longe.
E por que não? Não seria bom ir mais pra dentro, entrar no mar. Seria sim, seria um sonho. Jacinto tem medo, mas tem vontade. O mar é lindo. Só mais um pouquinho. Jacinto avança, o mar chamando. O mar lhe dá uma tapa. Mas que danado! Jacinto revida, o mar faz de novo.
— Olhe, assim não! — Grita, irritado. O mar se acalma. Jacinto emburrado, senta na areia molhada.
— Você é mau, mar.
O mar não responde. Vem devagarzinho e faz carinhos nos pés do menino, sopra no seu ouvido, joga no seu rosto respingos de sal e água. Quer fazer as pazes. Jacinto sorri. Está apaixonado. O mar chamando, chamando...
Jacinto vai, aceita as desculpas.
— Jacinto, vamos! Já é hora.
Jacinto chora, não quer. A mãe insiste e ameaça. Com uma pedra no coração, o menino abraça o mar mais uma vez. O mar o beija, o acarinha. O mar também é seu amigo.
— Amo você, mar.
O mar sorri e balança a sua barba branca na sua respiração solene e pausada.
*Texto anteriormente postado no blog Perigoso Feijão
de Mateus Zanelatti como edição comemorativa do mesmo.
Tendências e Medos
Tenho medo da mediocridade. Sei que não sou a única, muito menos a primeira. Porém sou uma dos poucos que conseguem diagnosticar esse medo e, sobretudo, admiti-lo. E o que mais me incomoda é que eu, realmente, tenho uma forte tendência a este bueiro fétido e aberto ao montes por aí.
Não me leve a mal ou interprete o meu desabafo como discurso megalomaníaco. Não! A minha angústia, na verdade, é que talvez eu não saiba nada demais. Não encante ninguém com nada ou desperte a admiração ou a aversão de alguém. Meu medo é esse.
Minha pretensão não é ser a melhor, superior aos demais. O que desejo é, pura e simplesmente , é saber, de verdade, fazer alguma coisa. Mesmo que essa seja a única coisa que eu saiba fazer. Apenas isso e eu estaria satisfeita.
Talvez eu ainda seja jovem, talvez seja assim mesmo e não têm remédio. Vai saber! Não busca uma resposta ou uma ajuda. Apenas gostaria de falar sobre isso. Não gosto de tabus. Alguns podem me dizer que eu escrevo alguma coisa, que eu canto e toco um bocadinho. Mas sinto falta de intensidade. E eu vou buscá-la. Onde quer que ela esteja. Taí, antônimo de mediocridade: Intensidade. É isso.
Obrigada por me ler.
Salve, Paris!
Estávamos entrando no avião. A hora exata, não sei dizer. Talvez fosse entre uma ou duas horas da manhã. Optamos por um vôo na madrugada por ser mais barato. E embora não fôssemos pobres, poderia nos faltar dinheiro. Angélica conservava um ar deprimido o tempo todo, não consegui arrancar-lhe um sorriso por um segundo sequer. Ela está indignada, assim como eu também estou, mas prefiro não deixar o gostinho de sucesso na boca de quem nos fez isso.
Hoje, 14 de Julho de 1966, Angélica e eu saímos do país através de um exílio forçado. Apesar de tudo, queremos continuar no Brasil, mas essa nossa regalia nos foi negada, inclusive com direito a embate jurídico. Angélica está inconsolável. Sequer nos deram justificativas plausíveis para fazer isso. Tínhamos duas alternativas: arquitetaríamos uma fuga para o norte do país e ficaríamos num jogo de gato e rato com a polícia. Sujeitos a doenças tropicais e até fome. Angélica não tem a mínima intimidade com a vida selvagem, seria uma crueldade submetê-la a isso. Sei que ela iria se eu fosse, mas não sou tão egoísta. A outra alternativa, foi a que escolhemos, aceitar a gentil sugestão do governo de fazermos uma segunda lua-de-mel na Europa, com tudo pago. Não sei até quando.
Só depois de entrar no avião e me aconchegar o máximo que pude naquelas cadeiras malditas, vejo a figura de Alfredo a olhar o nosso avião. Alfredo meu doce amigo, meu companheiro de vida, meu irmão. Minha vontade é de sair do avião e correr para dar-lhe um abraço, mas para minha angústia, o avião começa a se locomover. Lágrimas de tristeza e raiva me escapam, Angélica me consola. Também viu Alfredo.
— Vê o que fazem conosco, Angélica? — Sim, ela vê. Dá-me um beijo e me pede que pare. Ela é sempre assim, doce e fria ao mesmo tempo. Como um sorvete.
O avião enfim decola e meu coração se fecha. Não quero amar outro país. Juro odiar a França até onde puder. Mais tarde vejo que é impossível. E embora jamais ame outro país como amo Pindorama. A França me conquista como sendo o país onde meu primeiro filho Nasceu. Salve, Paris.
Jardins Suspensos
Babilônia. Ela se chamava Babilônia. Um nome incomum e sedutor. Não só porque ele era professor de História e ela tinha sardas no nariz. Não só porque ele tinha quase quarenta e ela quase vinte. Não só porque ela tinha cachos tão perfeitos que pareciam terem sido feitos à mão. Mas porque ela se chamava Babilônia.
Os amigos estragavam tudo e chamavam-na Babi. Ela a chamava por completo, assim como a tinha por completo. Babilônia, Babilônia, Babilônia... Babi... lônia. Ele chama pelo nome como quem clama por água no deserto. Esse era o efeito.
Ela arrancava todos os seus cabelos brancos com uma pinça e ele lhe dava palmadas na bunda e ela ria, ria e dobrava o riso. Ele não podia com ela. Mas ela podia com ele. E como podia.Babilônia era sábia como muita gente não sabia ser. Como muitas mulheres mais velhas não sabem. A menina tinha um dom.
Babilônia seria a sua ruína. Porém agora, ter medo seria um defeito imperdoável.
Conjulgamento
João Caboclo apareceu às três horas da matina na porta de Maria Santa, a roupa em frangalhos, o olho inchado e roxo, faltava-lhe um dente e o aroma que exalava da sua boca poderia matar um boi.
— Que diabos te aconteceu, homem? — Quis saber a mulher, mas um gemido foi sua resposta. Ela acolheu o homem, tirou-lhe o resto de roupa e jogou-o no chuveiro. Tossindo, gritando e xingando, João Caboclo despertou olhando para os lados, assustado e simulando golpes de caratê, tal qual via nos filmes.
— Deixe disso, homem! — Pediu A Santa, com uma calma inatingível em questões proporcionais. Com um esforço ele foi reconhecendo seu banheiro de azulejo quebrado e paredes descascando, a carantonha da mulher e seus cabelos afogueados, seu rosto foi tomando um tom avermelhado e suas costas foram se curvando como fariam as costas de um vassalo.
A vergonha inevitável foi lhe assomando. A mulher não disse nada. A vergonha do marido a olhos vistos lhe era suficiente. Mas só de pirraça, não lhe preparou o almoço. Deixou-lhe a pão e água por algumas horas.