Cansei

De pensar que eu não sei nada

De querer saber tudo

De querer que os outros pensem que eu sei tudo

De querer quem não me quer

De não querer quem me quer

De viver por um ideal que não é meu

De regras

De sombras e solidão

De medo do escuro

De cansaço

De achar que a vida tem fórmula

De querer respostas imediatas

De não ter paciência

Cansei,

Mas não sei o que fazer com essa conclusão.

A melhor coisa do mundo

Nós íamos livres, por isso estávamos tão felizes. Íamos descendo uma ladeira que já nem me lembro mais o nome. É uma coisa terrível o que o tempo faz com nossas lembranças. Porém, o que está gravado na minha alma — seja a ferro e fogo, seja a toque de suaves dedos — o tempo não mexe.

Mariana abraçou-se a mim, e íamos alegres, badernando estrada afora. Parecia carnaval, apesar de estarmos em maio. Maio que era o mês de aniversário de Mariana. De repente, alguém começou uma canção brasileira e festiva, todos nós a conhecíamos e fomos acompanhando em coro, numa só voz. Doze pessoas descendo uma ladeira de uma cidade antiga, aquelas casas de séculos atrás contrastando com a jovialidade dos corpos seminus que as atravessava.

Nunca havia sentido a liberdade como naquele dia. Muitas vezes nos reunimos, bebemos junto. Comemorávamos tudo, desde time que ganhou a aniversário do papagaio. Éramos típicos jovens que viam na vida uma grande festa. Éramos apaixonados por essa festa.

É importante que você saiba que você não precisa esquecer-se de comemorar tudo na vida só porque envelheceu, conheceu alguém e se casou ou só porque mudou de opinião, de emprego ou de cidade. Talvez alguns amigos se percam na estrada do tempo e você jamais os veja novamente, mas aqueles que você ainda consegue enxergar, não os perca de vista. Você vai ver como é gostoso ter alguém para quem dizer “Lembra?” e ver esse alguém sorrir de volta, dizendo que sim. E apenas vocês saberão do que se trata.

Enquanto eu descia aquela ladeira e olhava para o rosto dos meus companheiros, jamais me senti tão completo. Talvez naquele instante eu tenha constatado, mesmo sem perceber, que a amizade é a melhor coisa do mundo.

Um louco no paraíso das lembranças

Se você sonha deve saber. Deve saber que, às vezes, podemos ser nuvens cor-de-rosa. Eu me esqueci, um dia, de me pintar de branco e fui nuvem colorida o dia inteiro. Foi um dia bom.

Anunciada me dizia que eu nasci em picadeiro de circo e que um palhaço de pintura borrada, foi meu médico obstetra. Se é verdade? Sei lá! Anunciada nunca foi lúcida, embora sempre dissesse a verdade. Acontece que a verdade é aquilo em que nós acreditamos.

No dia em que fui nuvem, um homem me beijou. Seu rosto, seu nome, a cor de seus olhos? Não lembro. Mas sei que foi no dia em que fui nuvem. Foi um dia bom.

No deserto

— Às vezes não te dá um vazio, companheiro?
— Que tipo de vazio?
— Não sei. Vazio ideológico.
Camilo olhou nos olhos de Ana. Não soube muito bem distinguir, no calor do momento, o que sentia. Algum tipo de ofensa, misturada a algum tipo de pena. Os pelos de seu bigode estremeceram um pouco, nos cantos.
— Mas que coisa, companheira...
— Não estou fraquejando, se é isso que pensa. Não estou. Apenas...
— Apenas, o quê?
— Certas coisas que a gente escuta pelas ruas. Talvez não seja vazio, mas confusão.
— Não te deixes seduzir pelas falsas ideologias, companheira. Ás vezes as más opções se disfarçam de boas. E ninguém está imune de dar um mau passo.
— Sei disso, companheiro. Mas sei tão pouco de tudo.
— Você não precisa saber tudo, companheira. Apenas o que precisa saber.
Ana olhou para os próprios pés. As ruas asfaltadas em pedra bruta estavam cheias de volantes de greve, os dizeres “Não deixes que o opressor triunfe!”, destacava-se em negrito na folha de papel branco. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— Talvez eu não saiba nem o que preciso saber, companheiro.
— Mas saberá, querida. Saberás.
Camilo pôs a mão máscula e pesada no ombro da moça que chorava e ela lhe deu um sorriso molhado.

A felicidade independe de razões

Estavam os dois a discutir a metafísica. Na verdade, ele estava mais inflamado, querendo se fazer entender e cuspindo sobre ela gotas de boçalismo. Ela afirmava, sorria e se esquivava das balas e das armas.
Ao longe, um apito silenciou as bocas tagarelas que julgavam conhecer o mundo. Seguido do som agudo, uma moça e quatro rapazes despontaram na esquina, cada um carregando um instrumento. O primeiro segurava um tambor, o segundo uma flauta, o terceiro um pandeiro e o quarto um triângulo. A moça seguia na frente e apitou novamente, os rapazes responderam. Uma batida, uma nota, uma chacoalhada e um tinido. Logo a noite se encheu de festa, o pequeno grupo seguia tocando uma canção que não queria dizer nada, mas dizia tudo. Uma revoada de pessoas assomadas pela felicidade seguiram os rastros dos músicos.
Ela sorriu e disse:
— Vamos!

— Está louca? Não vê que essas pessoas não têm nada na cabeça. Onde já se viu fazer tamanho barulho, perturbando a paz daqueles que poderiam estar dormindo.
Ela o olhou, penosamente, e disse:
— Pois, fique.
E seguiu faceira e ansiosa ao encontro da multidão.

Blue

Salete fez sinal para o ônibus que quebrava a esquina da Rua Quinze. Na sua sacola grande e cheia, misturava-se bronzeador e maçã, bloqueador solar e pão com manteiga. Ela remexeu no bolso do mini-short a procura de moedas para a passagem.

— Só um minutinho, seu moço. — O moço esperava, mas sem paciência.

Enfim, as moedas. Pisa nos pés alheios, mete bolsada na cabeça desavisada.

— Cuidado aí, moça.

— Desculpe, viu.

E o ônibus segue. Destino: Alegria.

Salete põe os pés na areia. Seus olhos procuram seu amante de longa data. Ele também a procura, a sua maneira. Ela sorri para ele, abre os braços a dizer “Aqui estou!”, nem se importa com os comentários dos que passam e a julgam louca. Ela sorri para ele, e ele a seduz.

Lentamente, a moça tira os óculos, a blusa e finalmente o mini-short.

— Psiu! Ei, doçura! — Gritam os homens. Ela não ouve, ela só ouve o sussurro do seu amante, seu amante de olhos azuis, seu amante de alma azul, seu amante de braços azuis, aos quais ela se entrega.

— Meu amor, há quanto tempo?! — E o mar a abraça.

A Beatles Song

Às vezes, quando vejo uma coisa muito, muito bonita. Assim, uma coisa linda de verdade, sem explicação aparente. Algo que é simplesmente lindo, sem ajustes ou extravagâncias, mas que encanta; eu penso em Deus. E fico pensando, será de que Deus pensa em mim também?

Uma vez, alguém me disse que quando fazemos algo de bom, Deus olha pra gente. Eu tenho a sensação que Deus só olha pra gente em duas situações: No momento em que a gente nasce e no momento em que a gente morre. Talvez tenha outros momentos, não sei. Não quero me contradizer.

Eu nunca pisei num palco. Não de verdade. Mas acho que deve ser como se Deus olhasse pra gente. E ficasse olhando, olhando, até a gente sair. E depois, no camarim, ele ainda ficasse olhando um pouquinho. Acho que quando se é artista, se ganha uma atenção extra de Deus.

Engraçado a gente ter que ficar mendigando a atenção de Deus, né? Tendo que encontrar mil artimanhas para ser descoberto. Tendo que se submeter a regras e imposições que a gente nem sabe de onde veio, só pra agradá-lo. Mas a gente nunca vê se ele está gostando ou não.

Gosto de pensar em Deus como uma sensação. Quando a gente sente uma espécie de energia irradiando o corpo. Quando sente um calor no coração. Eu chamo isso de Deus. Acho que as coisas que nos fazem sorrir. As coisas e pessoas que nos despertam amor são Deus. Deus pra mim é isso. E acho saudável alguém encontrar uma forma de reconhecer Deus. Não importa como.

As vezes encontro Deus numa canção dos Beatles.